Posted in:

Patologias do quadril: como tratar as principais delas

patologias do quadril

Você já percebeu como problemas no quadril são frequentes e limitantes em nossos pacientes? Por isso precisamos entender suas patologias e como trabalha-las.

Se queremos que nosso aluno consiga realizar movimentos funcionais, evitar lesões e ter uma boa vida sem limitações, ele precisa ter um quadril saudável. Quando esse não é o caso, cabe a nós, profissionais do movimento, reabilitar o paciente.

Pensando nisso, separei algumas dicas e exercícios práticos para o tratamento de patologias do quadril. Está curioso para saber mais? Então continue lendo.

Anatomia do quadril

O quadril é uma articulação importantíssima para os movimentos de membros inferiores. Sendo do tipo esférico, ele é formado pela junção da cabeça do fêmur com a cavidade do acetábulo.

Ele possui três eixos e graus de liberdade diferentes, compreenda um pouquinho de cada um:

  • Eixo lateral: está no plano sagital, onde ocorrem movimentos de extensão e flexão.
  • Eixo ântero-posterior: está num plano frontal passando pelo centro do quadril, está relacionado aos movimentos de abdução e adução.
  • Eixo vertical: é o eixo onde ocorrem movimentos de rotação medial e lateral assim como o de circundação.

Musculaturas que movimentam o complexo articular

musculaturas patologias do quadril

Para realizar os movimentos do quadril precisamos de diversas musculaturas. Com todas elas funcionando perfeitamente o movimento é fluido e funcional, porém, qualquer desequilíbrio pode gerar problemas.

Os principais flexores do quadril são o Psoas, Ilíaco, Sartório, Reto Femoral e Tensor da Fáscia Lata. Para conseguir realizar o movimento de flexão dessa articulação, todas essas musculaturas ficam localizadas na parte antero-lateral  do membro inferior.

Claro que eles não trabalham sozinhos e recebem auxílio de alguns músculos adutores na hora da flexão. Musculaturas como pectíneo, adutor longo, curto e fibras anteriores do glúteo mínimo e médio fazem parte desse processo.

Já o movimento de extensão de quadril é realizado pelo glúteo máximo, fibras posteriores do glúteo médio e mínimo, porção longa do bíceps femoral, semitendinoso, semimembranáceo e porção extensora do adutor magno.

Continuando, temos os abdutores de quadril, entre eles está o glúteo máximo, em especial suas fibras superiores e laterais. A abdução é a menor ação realizada por essa musculatura. Também atuam no processo:

  • Glúteo médio;
  • Glúteo mínimo;
  • Tensor da fáscia lata;
  • Sartório;
  • Obturador interno e externo.

Por fim, listarei as musculaturas envolvidas no movimento de rotação interna. São eles:

  • Glúteo mínimo;
  • Tensor da fáscia lata;
  • Fibras anteriores do glúteo médio;
  • Semitendinoso;

Por que eu listei todas essas musculaturas que afetam o quadril? Para entendermos um pouquinho melhor de onde vem as patologias. Sabendo quais músculos estão envolvidos no movimento é mais fácil identificar a origem do problema, também precisamos lembrar de todas as musculaturas durante um processo de reabilitação.

Impacto Fêmoroacetabular (I.F.A.)

impacto patologias do quadril

Provavelmente essa é uma das patologias mais encontradas relacionadas ao quadril. Essa condição acontece devido a uma alteração no formato das estruturas do quadril, gerando maior impacto entre elas.

Em quadris normais, sem qualquer alteração, o fêmur não bate no acetábulo durante a movimentação. E essa é a grande diferença entre uma pessoa sofrendo de Impacto fêmoroacetabular e alguém “normal”.

As alterações podem vir acompanhadas de outras patologias ou ocasionar problemas mais graves como lesões nas estruturas da articulação e cartilagens. O primeiro problema causado pela deformação é um impacto excessivo entre o fêmur e o acetábulo, que pode gerar bastante dor no paciente.

A patologia é bastante comum em atletas que praticam atividades exigindo flexão e rotação de quadris como corredores e lutadores de artes marciais. Mas essas deformidades não são exclusivas desse grupo e podem afetar praticamente qualquer um.

Alguns pacientes podem desenvolvê-la depois de traumas e lesões na região, enquanto outros acabam com o impacto devido a patologias que existiram na infância. As causas são muitas, exigindo um tratamento individualizado para seu paciente de acordo com suas necessidades.

Os pacientes que apresentam impacto fêmoroacetabular não são acometidos por dores contínuas, mas sim “fisgadas” que acontecem em certos movimentos. Como a dor é rápida muitos não dão a devida importância à patologia e demoram para buscar tratamento.

A dor pode levar o paciente a limitar seus movimentos, percebendo quais deles causam o desconforto e passando a evitar a posição.

Tipos de deformidade

Existem dois tipos de deformidades que podem levar ao impacto fêmuroacetabular, tipo cam e tipo pincer.

  • Tipo cam:Geralmente você encontra essa deformidade em homens. Nas deformidades desse tipo a alteração acontece na cabeça do fêmur. O impacto do tipo cam pode acontecer cedo na vida do paciente e permanecer assintomático até que mudanças decorrentes da idade tragam o sintoma de dor.
  • Tipo pincer: Essa já é mais encontrada em mulheres. Agora não é mais o fêmur, mas sim o colo do acetábulo que sofre uma alteração e começa a cobrir exageradamente a cabeça do fêmur.

Muitas vezes também encontramos o impacto de tipo misto em nossos pacientes. Nesses casos as alterações na articulação possuem algumas características de cada tipo.

Tratamento de pacientes com impacto femoroacetabular

O paciente com essa patologia sente dor especialmente em movimentos em grandes amplitudes. Sempre falo como é importante reverter a limitação de amplitude de movimento num processo de reabilitação, e isso é verdade.

Mas ainda mais importante é respeitar a dor do aluno. Se ele sente dor ao realizar um movimento em grande amplitude, vamos limitar as amplitudes de movimento numa fase inicial de tratamento.

Para escolher da maneira certa o que limitar a princípio, você deve avaliar com cuidado o estado da inflamação. Aos poucos seu aluno ficará mais confortável com os movimentos e você poderá aumentar a amplitude, tudo gradualmente.

Lesão do lábrum

Com frequência o impacto fêmoroacetabular causa uma lesão no labrum, que é uma fibrocartilagem essencial para um bom movimento do quadril. Preste atenção, nem sempre a lesão veio desse impacto e das deformidades.

Algumas vezes o paciente sofre lesão devido a um outro trauma ou devido a desgastes repetidos na articulação. As lesões que ocorreram devido ao impacto fêmoroacetabular muitas vezes levam a uma artrose e geralmente são consideradas evolutivas.

O lábrum é uma das principais causas de dor na síndrome do impacto fêmoroacetabular. Ele é uma região bastante enervada e suas fibras são estimuladas pelo impacto das estruturas do quadril.

Em deformidades do tipo pincer o lábrum fica prensado entre as estruturas do fêmur e do acetábulo na posição onde ocorre o impacto. Uma consequência comum do problema é a calcificação do lábrum que aumenta o impacto.

Bursite Trocantérica

patologias do quadril tratamento

Recebo perguntas sobre a bursite trocantérica com frequência. Ela também é uma causa bem comum de dor no quadril, mas tome cuidado para não confundir a bursite com tendinite!

Geralmente a tendinite afeta a região do glúteo médio e é uma inflamação nos tendões do local. Já a bursite inflama uma Bursa, pequena “bolsa” de líquido que amortece o impacto entre as estruturas da articulação. A dor da bursite afeta a região lateral e anterior do quadril.

Acontecem casos onde não é possível identificar se a inflamação é uma bursite ou uma tendinite. Então chamamos o problema de trocanterite, por acontecer na região do trocânter.

O comum é que os sintomas da bursite piorem durante a noite fazendo com que a pessoa tenha dificuldade de deitar do lado inflamado.

Um grupo de risco de sofrer de trocanterite são os corredores. Quem trabalha com treinamento desses atletas precisa ter muito cuidado e investir tempo na prevenção da inflamação.

Dificuldades do paciente com bursite trocantérica

A bursite gera dor, então obviamente o paciente terá dificuldade para realizar alguns movimentos. Subir escadas será um desafio em especial.

Mas eu não posso proibir meu paciente de subir escada. Imagina como seria a vida de uma pessoa que mora no terceiro andar do prédio que não pode subir escada? Limitações em geral são impossíveis de serem colocadas completamente em prática.

Ao invés de manter as limitações criadas pela dor, o profissional deve criar maneiras de aliviar a dor e fortalecer musculaturas do quadril para realizar o movimento. Se nossa intenção é reabilitar o paciente ele também deve estar pronto para se mover.

CUIDADO! Algumas vezes confundimos a síndrome do piriforme com bursite trocantérica. Na síndrome do piriforme a dor é refletida para o trocânter, mas não é causada pela inflamação da Bursa, portanto o tratamento tem um foco diferente.

Artrose

artrose patologias do quadril 11

A artrose é considerada uma doença crônica e degenerativa que acontece quando existe um desgaste da cartilagem do quadril. Como a cartilagem tem a função de suavizar os movimentos, sua perda causa dor e desconforto no paciente.

O desgaste é gradual, começando por uma sutil diminuição em sua espessura até que a cartilagem desapareça completamente deixando um grande atrito entre os ossos.

Sua origem pode estar em fraturas e traumas, outras patologias (como o impacto femoroacetabular) ou até predisposição genética do paciente. É bastante comum não conseguir identificar sua origem, mas alguns grupos de risco como idosos e obesos são bastante afetados.

Identificando patologias do quadril

A avaliação física do paciente define o sucesso ou fracasso de qualquer reabilitação. Além de nos ajudar a identificar exatamente qual patologia afeta o corpo, ela também nos mostra quais movimentos estão limitados e musculaturas mais tensionadas.

Na bursite e na tendinite o primeiro movimento que a pessoa perde é a rotação interna. Então podemos começar por aí, com um teste de rotação interna de quadril. Compare os dois lados do corpo da pessoa, vendo se existe diferença entre os movimentos.

Também compare o movimento de rotação interna e externa de quadril do seu paciente. Caso ele sinta dor ou tenha dificuldades para realizar a rotação interna, você provavelmente está com um caso de bursite ou tendinite.

Depois de avaliar os movimentos, você pode começar a identificar as musculaturas tensionadas. Um músculo que fica bastante tensionado é o tensor da fáscia lata, e você consegue analisar isso através de apalpação.

Aproveite para conferir se tem algum ponto gatilho nessa região. Encontrou algum? Então faça uma liberação miofascial ou libere por digito pressão até o aluno sentir alívio na dor e alongue antes de começar a aula. Não esqueça de conferir se o Psoas está tensionado, ele é uma musculatura importante para a movimentação do quadril.

Nunca esqueça de avaliar o quadrado lombar. Vejo muita gente avaliando somente o lado do quadrado onde o paciente sente dor no quadril, mas quem disse que o quadrado só se tenciona do lado do movimento?

Faça o teste rapidinho. Quando a pessoa está em decúbito dorsal, dê a instrução para levar uma perna. Confira que o quadrado lombar também tenciona de maneira contralateral.

Por fim, confira se existe tensão no piriforme e no glúteo médio. Se a pessoa estiver com dor na região do piriforme é possível que exista uma síndrome do piriforme, já dor no glúteo médio é sinal de uma tendinite nessa musculatura.

Dicas de exercícios

exercícios para patologias do quadril

Chegou a hora de recomendar alguns exercícios. Lembrem-se sempre, dor que surgiu da falta de movimento só pode ser curada com movimento. Então não tenha medo de aplicar exercício para seu aluno, se ele não está sentindo dor com certeza pode fazer.

Mobilidade de quadril e ativação de glúteo

A mobilidade muitas vezes é perdida quando a pessoa sofre de alguma patologia na articulação. É normal que a dor force o indivíduo a limitar seus movimentos, fazendo com que o quadril perca sua principal necessidade.

A importância da mobilidade vai além do tratamento das patologias. Quem tem um quadril com falta desse atributo pode acabar com dores na coluna devido às ações de cadeias musculares cruzadas.

O glúteo é uma musculatura essencial para realizarmos movimentos com o quadril. Então profissional algum pode esquecer de incluir trabalhos com essa musculatura. Aproveite para conferir alguns exercícios abaixo de ativação de glúteo e mobilidade de quadril.

Exercícios para glúteo

Ao aplicar exercícios para o glúteo precisamos lembrar de trabalhar todas as movimentações que o glúteo ajuda a realizar no quadril: rotação externa, extensão e abdução. O movimento que apresento no vídeo abaixo é bastante útil para esse fim.

CUIDADO! Esse exercício não é recomendado para pacientes em fase pós-operatória.

Exercícios para pós-operatório

Muitas pessoas têm dúvida sobre trabalhar com pacientes em pós-operatório. Pacientes que fizeram alguma intervenção cirúrgica para resolver suas patologias estão em uma situação delicada.

Para escolher quais são os exercícios mais indicado é necessário levar em consideração acima de tudo a recomendação médica. Também precisamos limitar um pouco os movimentos de acordo com a dor e capacidades individuais do aluno.

Dou alguns exemplos abaixo de exercícios que podemos usar com esses pacientes.

Afundo

O afundo é um exercício eficiente para trabalhar diversas musculaturas e ajuda bastante na reabilitação do quadril. Ele trabalha musculaturas do quadríceps e da região posterior, além de movimentos funcionais do quadril.

Usar o afundo em aula é uma ótima maneira de ativar várias musculaturas que ajudarão seu aluno na variação, mas tome cuidado com o nível do aluno já que esse é um movimento mais complexo. Podemos usar variações suas caso a pessoa sinta muita dificuldade.

No caso específico das patologias do quadril, podemos realizar o exercício fazendo uma leve inclinação para a frente com o tronco. Dessa maneira o glúteo fará um trabalho mais intenso, sendo mais fortalecido como resultado.

Outro afundo muito importante trabalhar é uma combinação de afundo com remada. Fazemos essa variação para conseguir fortalecer a dorsal e o glúteo do aluno ao mesmo tempo. A dorsal deve ser trabalhada devido às cadeias cruzadas existentes no corpo que faz com que essa região fique tencionada quando existe tensão no quadril.

E se o aluno estiver com dor?

Keyner, meu aluno está com dor e não consigo fazer exercício de quadril com ele!

Não se preocupe, não é só o quadril que precisa ser trabalhado durante a reabilitação. Como já falei anteriormente, a dorsal precisa de exercícios para evitar tencionar o quadril.

A torácica também gera compensações e tensões no quadril e precisamos fazer um bom trabalho de mobilidade nessa região. Quem faz trabalhos de mobilidade torácica com o aluno e acha que não está adiantando deve prestar atenção nos planos de movimentos da torácica.

Os exercícios para mobilidade torácica devem contemplar movimentos nos planos frontal, sagital e transversal. Não tenha medo de realizar movimentos com seus alunos, é só isso que será capaz de ajuda-los.

Conclusão

O quadril é um complexo articular essencial para bons movimentos. Qualquer um pode sofrer de patologias nessa área e ter seus movimentos limitados. Por isso o profissional deve compreender bem cada uma das patologias para escolher os melhores exercícios para trata-las.

Existe uma variedade de exercícios que podemos utilizar na reabilitação das patologias do quadril. Para escolher qual é o ideal tudo depende de uma boa avaliação e compreensão dos problemas de desequilíbrios do seu paciente.

Os exercícios mostrados nesse artigo não são um guia, muito longe disso. Eles são ideias e recomendações que cada um deve aplicar levando em consideração as características individuais do paciente.

O que achou do conteúdo? Se curtiu esse artigo e quer continuar lendo matérias semelhantes, assine a LISTA VIP do blog. E caso queira ainda mais exercícios aproveite também para baixar meu E-book sobre quadril e joelho.

16 Comentários

Deixe uma Resposta
  1. Muiiito bom Mestre, sempre dando aquela visão além do alcance e trazendo novos insights para nós.
    Muito grato por mais um artigo com qualidade.

  2. Achei maravilhoso os exercícios e as explicações das patologias tbm.
    Vou aplicar estes exercícios nos clientes que tenho e que estão com estas patologias.
    Obrigada pelo esclarecimento. Vc é mto bom

  3. Tenho uma deformidade chamada coxa valga.
    Pouco achei de material sobre o assunto em pesquisas que realizei.
    Meu médico me indicou aulas de Pilates para auxiliar na diminuição das dores, fortalecendo musculaturas importantes perto da região afetada.
    Você poderia me auxiliar no assunto?

    • Oi, Patrícia!
      O melhor mesmo é você continuar com o acompanhamento médico e seguir o tratamento indicado. É impossível fazer uma avaliação por aqui e recomendar exercícios.
      Abraços!

  4. Estou agradecida pelo mestre que vc é, e pela disponibilidade que tem em nós passar tudo aquilo que sabe !!!! De maneira clara e segura , só tenho à agradecer

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *